Ao dar por mim, percebi que haviam me deixado sozinho no rochedo.
Pouco tempo antes, eu fora com minha irmã e meu irmão até os pés daquele penhasco, à procura dos peixinhos que lampejavam por entre as rochas à beira-mar. Não conseguimos pegar tantos quanto imaginávamos, e os dois começavam a se enjoar da brincadeira. Uma empregada veio nos chamar, para levar-nos ao guarda-sol onde minha mãe se encontrava. Com um semblante pouco amistoso, recusei-me a acompanhá-la, e ela me deixou sozinho, levando consigo apenas os dois pequenos.
O sol da tarde de verão batia em cheio na superfície do mar, sem dar trégua. A baía toda era um gigantesco e vertiginoso espetáculo. No horizonte, as nuvens de verão pairavam caladas, com metade de suas formas magníficas, tristonhas, proféticas, imersas nas águas. Seus músculos eram pálidos como alabastro.
Dois ou três barcos a vela, lanchas e vários botes de pesca que haviam partido da praia moviam-se hesitantes mar adentro. Fora as pessoas a bordo, não se via outra forma humana. Um silêncio sutil pairava sobre tudo. A brisa marítima, estampando no rosto segredos delicados, fantasiosos, trouxe aos meus ouvidos o bater invisível de asas, como o de alegres insetos. A costa era formada ali por rochas planas, dóceis, que avançavam para o mar. Havia apenas dois ou três penhascos escarpados como aquele onde me sentara.
As ondas se formavam no mar alto, inflando-se em incertas formas verdes, e vinham deslizando sobre a superfície da água. Dela sobressaíam rochedos mais baixos, que, como mãos brancas em busca de socorro, elevavam borrifos espumantes e, ainda resistindo, mergulhavam na profunda sensação de abundância, como se sonhassem boiar livres de amarras. Logo uma onda os deixou para trás e se aproximava da praia sem perder velocidade. Então, de dentro de sua murça verde algo despertou e se ergueu, revelando a lâmina afiada do gigantesco machado do mar, pronta a desferir seu golpe. De repente, aquela guilhotina azul-escuro despencou, jorrando brancos respingos de sangue. O dorso da onda perseguia a crista esfacelada, refletindo o azul cristalino do céu, aquele azul inexistente neste mundo, que se projeta nas pupilas de alguém no limiar da morte... Os rochedos lisos e carcomidos, antes visíveis, esconderam-se nas espumas brancas durante a breve investida, mas agora tornavam a cintilar com os resquícios da onda batendo em retirada. Do alto do rochedo, vi bernardos-eremitas cambaleando e caranguejos imóveis sob o brilho ofuscante.
Uma sensação de solidão logo se misturou às lembranças de Omi. Relato a seguir como isso se manifestou. Eu ansiava por me aproximar da solidão que transbordava da vida de Omi, de seu isolamento, obra do destino; imitava-o agora, desfrutando da solidão daquele momento, a qual, em aparência, assemelhava-se um pouco à dele: o vazio que sentia diante da plenitude do mar. Devia, sozinho, fazer ambos os papéis, o dele e o meu. Para isso, tinha de encontrar algum ponto em comum entre nós, por ínfimo que fosse. Dessa maneira, a solidão inconsciente que ele carregava, eu a sentiria por ele, e poderia, consciente, agir como se tal isolamento estivesse repleto de deleite, realizando enfim a fantasia segundo a qual o prazer que eu sentia ao vê-lo se transformaria no prazer que o próprio Omi sentiria.
Desde que começara a ficar obcecado pela pintura de são Sebastião, eu adquirira o hábito de cruzar os braços sobre a cabeça toda vez que me encontrava despido. Meu corpo frágil não tinha nem a sombra de sua exuberante beleza. Agora, porém, sem querer, via-me de novo naquela pose. Meus olhos focalizaram as axilas. E fui acometido por um incompreensível desejo sexual.
Juntamente com o verão haviam chegado os primeiros rebentos daquela mata negra, que nem se comparava à de Omi, é verdade. Ali estava o ponto em comum entre mim e ele. Sem dúvida, sua presença era patente em meu desejo sexual. Mas tampouco podia negar que meu desejo relacionava-se também com minhas próprias axilas. Naquele momento, a brisa marítima que fazia minhas narinas estremecerem, a luz intensa do verão que brilhava, provocando uma ardência em meus ombros e peito nus, o fato de não ver nenhuma forma humana até onde a vista alcançava — a junção de tudo isso me fez recorrer ao “mau hábito”, pela primeira vez ao ar livre, sob o céu azul. Escolhi minhas próprias axilas como objeto de desejo...
Estremeci tomado por uma tristeza inusitada. A solidão queimava-me feito o sol. O maiô azul-marinho de lã grudara em meu abdômen, provocando uma sensação desagradável. Desci vagaroso o rochedo e mergulhei meus pés na água. As marolas lhes davam o aspecto de conchas brancas mortas, e vi com nitidez o fundo do mar forrado delas, tremulando com as enciclias. Ajoelhei-me dentro da água. Nesse instante, uma onda quebrava e rugia grosseira em minha direção; atingiu-me no peito e rendi-me a ela, que me envolveu quase todo com seus respingos.
Ao recuar, senti-me lavado de minha impureza. Junto com meus incontáveis espermatozóides, os inúmeros microrganismos, as sementes de plantas marinhas e as ovas de peixe, ela havia sido engolida e levada pelo mar espumante.
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